SOLUÇÃO EMPRÉSTIMOS

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segunda-feira, 25 de julho de 2016

"Vocês querem ser homens ou sapos?" Perita usa conceitos de neurociência para evitar ações impulsivas e erros de soldados.

A fonoaudióloga que quer transformar policiais em 'príncipes' com método de não-violência



"Vocês querem ser homens ou sapos?". É o que pergunta a fonoaudióloga Mônica Azzariti aos policiais das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) do Rio de Janeiro.

Não importa o que dizem os ouvintes, sua resposta é sempre a mesma: "Mas não quero homens, quero príncipes".

O diálogo acontece nos cursos de Comunicação Não Violenta que Azzariti dá aos PMs desde o ano passado.

Nas aulas, ela adapta o método - baseado em observação e diálogo - ao dia a dia das favelas. O objetivo é evitar conflitos com os moradores, melhorando a interação dos soldados e tornando sua ação mais racional. A iniciativa faz parte de um projeto de Polícia de Proximidade, que pretende integrar as unidades à população.

No primeiro semestre de 2015, foram registradas 73 mortes em áreas de UPPs, 17 classificadas como homicídios decorrentes de intervenção policial. Do outro lado, seis policiais militares morreram no período, segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP) do governo do Estado.

Entre as lições do curso de duas horas estão desfazer a "cara de tigre" - cara de mau ensinada no treinamento -, controlar o tom de voz e usar abraços para criar laços com os locais.

"Para isso, falo do funcionamento do cérebro. Digo: vocês querem agir pelo tronco encefálico, o cérebro primitivo-reptiliano, o mesmo dos sapos? Ou querem ser homens e usar as capacidades de raciocínio que só o ser humano tem?"

Voluntária na polícia, Mônica Azaritti assessora o Bope desde 2014, especialmente sobre negociação de reféns. No ano passado, foi convidada a orientar as UPPs. De lá para cá, mais de 3 mil homens assistiram a suas aulas.

O que paga as contas, diz, são seus trabalhos como perita e professora de pós-gradução. Especialista em leitura comportamental, faz análises de depoimentos, confissões e delações, entre elas a de Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef, envolvidos na Operação Lava Jato.

Neurociência
A transformação citada por Azzariti passa pela neurociência. Ao falar sobre o cérebro, ela quer impedir comportamentos impulsivos e os erros que eles trazem.

A fonoaudióloga usa dois conceitos: a fisiologia da primeira impressão e a primazia do negativo.

O primeiro trata dos perfis de pessoas e situações que construímos em nossas mentes e podem representar um perigo, por exemplo. Quando identificamos algum deles, reagimos. Azzariti explica que, por trabalharem em ambientes instáveis, os PMs têm essas reações mais afloradas.

"Todos temos algum tipo de preconceito inconsciente, mas eles têm isso muito forte porque suas vidas estão em risco. É o que faz policiais atirarem em pessoas que estão segurando uma furadeira. Às vezes tomam atitudes automáticas, de autoproteção."

O segundo termo diz respeito aos pensamentos negativos que imperam nos soldados. Eles sempe esperam o pior, porque foram treinados assim.

"É uma espécie de blindagem. É o melhor? É correto? Não. Mas é fisiológico. Tento conscientizá-los para que racionalizem mais."

Uma das situações que Azzariti trabalha é a relação com os líderes comunitários, muitas vezes conflituosa. Ao dar um recado ao representante da comunidade, o policial pode ouvir um "vocês não mandam na gente".

Em vez de gritar, ele é orientado a observar a ação sem julgar ou criticar, reconhecer os sentimentos que estão ali, identificar o que é preciso para resolver o problema e saber o que pedir e como pedir. Essa é a metodologia da Comunicação Não Violenta.

Moradores, não bandidos
Questionada sobre a aplicação do método quando há suspeitos de crimes, a fonoaudióloga destaca que ele serve para o contato com os moradores, não com "bandidos".
"Os policias usam o termo 'vagabundo'. Eles conhecem muito bem. O tratamento é para todo cidadão que não está cometendo nenhum tipo de delito."

As revistas nos moradores, prática bastante criticada por ONGs de direitos humanos, é defendida pela especialista.

Prevenir crimes, diz Azzariti, é função dos policiais. Mas há formas e formas de revistar alguém. Na sua opinião, abordar pessoas com educação e gentileza diminuiria o constrangimento.

Apesar da importância das lições para evitar episódios violentos, ela diz que sempre há resistência nas primeiras aulas.

"Tenho que convencê-los de que precisam usar as estratégias. Chegam blindados e preciso desconstruir isso. Por isso é tão apaixonante."

Depois da persuação, há fotos sorridentes ao lado da instrutora, mensagens de agradecimento e até aplicação das técnicas nos casamentos dos PMS: "dizem 'professora, vou usar isso com a minha mulher".

Origem dos problemas
Os problemas de comunicação, são, para a fonoaudióloga, explicados por dois fatores-chave: as condições ruins de trabalho e a visão negativa que a sociedade tem dos policiais. Eles aumentariam o estresse, facilitando posturas mais agressivas.

"Eles dizem 'Ah, mas a senhora não sabe, tem serviço em que a gente fica 24 horas, 12 horas em pé na rua e recebe um pão duro com mortadela verde e uma garrafa d'água'. E, realmente, não tem água para eles beberem, não tem lanche, sem falar que trabalham muito."

Além disso, a perita diz que a população não está disposta a conversar com os policiais e que culpa toda a corporação pelos erros cometidos por parte dela. Frente a essa aversão, muitos membros da corporação estariam "cansados de provar que não são maus".

Segundo Azzariti, o perfil do soldado mudou, mas a maioria continua pagando pelos equívocos do passado, quando a brutalidade era a única via.

"Antigamente havia um perfil mais truculento. Um soldado teria dificuldade para ler e escrever. Hoje há soldados que fazem pós-graduação e isso transforma completamente seu perfil. Vejo formados em Pedagogia, Arquitetura, Engenharia. Antes, eram peças de reposição. Um morria e colocavam outro no lugar...Bom, as coisas mudaram."


G1 RIO