SOLUÇÃO EMPRÉSTIMOS

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terça-feira, 16 de agosto de 2016

Forças Armadas, as caçadoras de medalhas

8 das 10 medalhas do Brasil vem de quartéis. Técnico de Zanetti cobra de militares trabalho de base

O ginasta Arthur Zanetti conquistou a esperada medalha de prata na final das argolas, aplaudiu o resultado e prestou continência ao subir ao pódio. Há quem ainda se surpreenda, mas o gesto começa a ser comum nuns Jogos onde 145 atletas– quase um terço da delegação brasileira – são parte das Forças Armadas. Das dez medalhas conquistadas pelo Brasil até esta terça-feira, oito vêm dos quartéis, enquanto em Londres foram apenas cinco. Mas de onde saem tantos atletas de elite com vocação militar? É uma bem sucedida campanha de marketing das Forças Armadas ou o protagonismo dos sargentos apenas ilustra a falta de investimento do Brasil no esporte de competição?

Zanetti, assim como o colega Arthur Nory (bronze), os judocas Rafael BabySilva (bronze), Sarah Menezes ouRafaela Silva (ouro), a dupla de jogadoras de vôlei praia formada por Talita e Larissa, o atirador Felipe Wu (prata), a esgrimista Amanda Simeão ou a maratonista aquática Poliana Okimoto (bronze), passaram por um edital público e se tornaram militares, mesmo sem vocação de combate. Zanetti, por exemplo, se incorporou ao programa há um mês e os jovens boxeadores e sargentos Michel Borges e Patrick Teixeira, criados na favela carioca do Vidigal, sequer prestaram o serviço militar obrigatório.

Todos eles, no entanto, têm nas Forças Armadas uma renda fixa que, somada a outras possíveis ajudas do Governo, como o Bolsa Atleta, o Bolsa Pódio ou os recursos dos patrocinadores tiram os esportistas de elite da precariedade. Além da instrução básica militar, eles recebem um salário equivalente ao de terceiro sargento (cerca de 3.200 reais brutos), contam com seguro médico e direito de usar as instalações do Exército, da Aeronáutica ou da Marinha, segundo a instituição que os contrate. Nesta Olimpíada há equipes, como a do judô, compostas exclusivamente por militares. A seleção feminina é toda da Marinha brasileira, e a dos homens é do Exército.

Em casos como o da sargento Tang Sing, lutadora de taekwondo, recursos básicos como um nutricionista ou um lugar para treinar que não fosse a varanda de casa só foram possíveis uma vez que ela entrou no Exército. “Graças ao Exército pude realizar meu sonho de participar dos Jogos Olímpicos. Antes não tinha nenhum apoio e estava a ponto de abandonar o esporte. Com meu soldo como militar [cerca de 3.000 reais], consegui pagar um nutricionista, fiz viagens internacionais para competir, arco com meus suplementos energéticos... Tudo isso é muito caro e eu sempre passei dificuldades econômicas”, disse ao EL PAÍS em julho.
Protagonismo

ATLETAS, CONTINÊNCIA E PÓDIO

Felipe Wu, Arthur Nory, Arthur Zanetti prestaram continência ante a bandeira do Brasil ao receberem suas medalhas. O gesto causou certa polêmica nos Jogos Pan-Americanos de Toronto em 2015, quando a maioria dos 67 militares medalhistas o fizeram.

Nesta Olimpíada, a continência poderia contrariar a normativa do COI de os atletas evitarem qualquer manifestação política, como a vista –e condenada– nos Jogos do México, em 1968, quando Tommie Smith, medalha de ouro, e John Carlos, de bronze, ergueram seus braços como a saudação dos Panteras Negras, histórico grupo que combateu a discriminação racial nos Estados Unidos.

O Comitê, no entanto, não entrou em polêmicas com as Forças Armadas, peça-chave na segurança de esta Olimpíada, e liberou a saudação, mas a própria Rafaela Silva, ouro no judô e sargento da Marinha, reconheceu ter deixado a mão quieta: “Tem muita regra que muda de uma hora para outra. Antes não podia nem fazer o sinal da cruz que você já era desclassificado. Então, para não correr risco de perder minha medalha, continuei com a mão quieta”, disse a judoca.

Zanetti, o último dos medalhistas brasileiros, no entanto, defendeu seu gesto: A gente tem nosso clube, que a Prefeitura de São Caetano do Sul acaba bancando (…) Meus patrocinadores e a Força Aérea Brasileira, também me ajudaram bastante na minha carreira. [Prestei a continência] porque acho que é um modo de expressar, dentro do meu país. E como faço parte da Força Aérea Brasileira, é um momento de felicidade, de alegria, para todo país”.

Para o major Guedes, vice-presidente da Comissão de Desportos do Exército, prestar continência “nada mais é que um símbolo de respeito à bandeira nacional, feito por todos militares do mundo”. Para o professor Trengrouse, da FGV, é “uma justa homenagem à bandeira brasileira”.

Marcos Goto, o treinador de Zanetti, resumiu assim o assunto após a vitória: "Sempre vai ter polêmica. Se prestar continência, vai gerar polêmica, se não prestar vai gerar também"

“O protagonismo das Forças Armadas nestes Jogos é um sinal da deficiência que o Brasil tem para manter, desenvolver e sustentar seus atletas. Como não há condições para fortalecer as estruturas que formam esses atletas, especialmente os clubes, os militares acabam ocupando esse espaço”, avalia Pedro Trengrouse, professor da FGV-Rio de Aperfeiçoamento em Gestão de Esportes.

O Programa Atletas de Alto Rendimentoque contrata com base nos resultados esportivos e abraça esses atletas é uma parceria dos ministérios de Esportes e da Defesa inspirada nas experiências de países como Alemanha, China, Rússia,França e Itália, que possuem iniciativas semelhantes. Criado em 2008 durante oGoverno Lula, consome 18 milhões de reais por ano, entre eventos esportivos, equipamentos e salários. E tem dois objetivos: apoiar o esporte brasileiro mas, sobretudo, conquistar espaço nos campeonatos internacionais militares, eventos onde o país é a segunda potencia esportiva.

O treinador de Zanetti, Marcos Goto, no entanto, fez questão de frisar depois da vitória do pupilo que a ordem dos fatores pode alterar o produto. “São militares? Ou são atletas que são militares?”, disparou ante a pergunta do EL PAÍS sobre qual era o papel das Forças Armadas na vitória do ginasta militar. “Eles não treinam lá, só são contratados por eles (...) Gostaria que os militares fizessem um trabalho de base, tiraria o chapéu para eles. Agora, apoiar atleta de alto nível é muito fácil. Quero ver apoiar a criança até chegar lá. O dia em que os militares fizerem escolinhas e apoiarem iniciação esportiva, apoiarem treinadores, aí vou tirar o chapéu. Por enquanto, não”, disse Goto.

Na mesma linha está Raff Giglio, que treinou desde criança os irmãos Falcão, medalhistas em Londres no boxe, e padrinho de Michel Borges e Patrick Teixeira que estrearam sem medalhas nesta Olimpíada. “Os militares não fabricam atletas, eles pegam atletas de ponta e convidam eles para entrar na carreira militar. No caso do Patrick e Michel, eles quase não pisam o quartel, entraram porque é uma oportunidade de ter um salário bom, além das bolsas”, explica Giglio.

Atletas militares no alto do pódio melhoram inevitavelmente a imagem das Forças Armadas, a instituição em que os brasileiros mais confiam, segundo pesquisa da FGV, reconhece o major Guedes, vice-presidente da Comissão de Desportos do Exército. Ele, não entanto, recusa o papel das Forças Armadas como caçadoras de atletas que por si sós já colecionariam medalhas. “O programa realmente apoia e fortalece o atleta, temos alguns realmente consagrados, mas outros são jovens promessas que estão começando”, defende o Major Guedes. “O programa conta com 145 atletas militares classificados para a Olimpíada, mas no total temos cerca de 600”, completa. O Ministério da Defesa, após as declarações de Goto, defendeu seu Programa Forças no Esporte, que benificia 21.000 crianças e busca a integração social dos meninos em situação de vulnerabilidade social por meio do esporte.

O objetivo dos militares e sair da Rio 2016 com pelo menos 10 medalhas, o dobro do que conseguiram em Londres com 50 soldados nas suas fileiras. Faltam apenas três para conquistar uma meta que, em todo caso, contribui para tentar alcançar o complicado desafio do Comitê Olímpico Brasileiro de colocar o Brasil –nesta segunda na décima sexta posição– entre as dez primeiras potencias esportivas com mais medalhas.

EL PAÍS