SOLUÇÃO EMPRÉSTIMOS

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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Como pode a vida/morte do ser humano ter se tornado tão banalizada, sem importância?


Um dia acordo com o telefone tocando, eram por volta das 7:00hs da manhã de segunda-feira. 
- Alô!
-Bom dia. Com quem eu falo? 
-Bom dia, Raiane.
- A senhora é esposa do Sr. Wilson? 
-Sou sim, o que houve?
- Sou o oficial de dia do HCPM(Hospital da Polícia), precisava que a senhora trouxesse os documentos do seu esposo e comprovante de residência. 
-Sim! Mas o que aconteceu?
- Seu marido teve 2 intercorrências essa madrugada. Precisava de que a senhora trouxesse isso. Desculpa ligar a essa hora.
-Sim sim!!! Estou a caminho! 
Naquele momento, peguei minha filha que dormia na cama comigo, corri para o quarto de minha mãe. E gritei batendo na barriga dela: "Mãeeee, o Wilson mãe. Ele piorou!".
Joguei minha filha em cima da cama, e liguei para o meu cunhado. "Cunhado, vem pra cá agora. O Wilson piorou. O oficial de dia acaba de me ligar. Vem agoraaa!!!" Naquele momento eu não pensava, só agia!
Abri o WhatsApp em busca de alguma informação. Fui direto no grupo da guarnição dele. E me deparo com a mensagem do major dele. Dizia assim: "Bom dia. Venho comunicar o falecimento do SD PM Gorni, que havia sido baleado há alguns dias, em Caxias, em razão de ter rido de um cidadão que caiu no chão ao quebrar uma cadeira ao sentar. Estive no HCPM por volta de meia noite para tentar falar com ele visto que soube da piora de seu estado, mas não deu tempo... Um policial que estava sempre alegre, de bom humor. Estive no último casamento coletivo da CPP, e ele estava lá com a esposa e família. Deixa esposa e uma filha. O mais triste é ver como a vida foi banalizada".
E naquele instante, meu mundo acabou. Fiquei sem chão. Sai correndo gritando. "Não não não nãoooo! Meu marido não Senhor! Por favor ele não!" 
Meus joelhos dobraram e eu caí. Eu era só grito. Grito de dor, de revolta, de indignação. 
Indaguei: "Porque o senhor fez isso comigo? Porque o salvou, para o levar depois de uma semana. Porque meu Deus? Não faz isso comigo! Eu te peço!!!! Jususss!!! 
Peguei meu telefone, e liguei para o pastor. Pastor que o Wilson tinha um enorme respeito, uma grande admiração. "Pastor!!!! O Wilson se foi pastor. Deus o levou. Porque ele fez isso comigo? Ele não podia ter feito isso! Naquele momento o silêncio gritou em meio a tanta dor. Ele tentou me acalmar... Pediu para que eu colocasse minha mão em meu coração. E fez uma oração por telefone. 
Eu olhava para minha filha sem acreditar no que acabara de acontecer. 
Meu cunhado chegou. Durante a viagem tentei manter a calma, pois ele estava dirigindo. E era o irmãozinho dele que estávamos indo ver...
Assim que estacionamos, eu peguei minha filha, e fui na frente andando de pressa, pensando, " o Senhor não ressuscitou Lázaro? Então pode ressuscitar meu esposo. Ainda está em tempo. Não deixe eu saber pelos médicos...". Cheguei na sala do oficial do dia. Me apresentei.
-Oi, bom dia. O senhor me ligou mais cedo. Sou a esposa do Wilson Gorni. Trouxe o que me pediu. 
- Bom dia, o seu esposo está mal, ele teve duas intercorrências essa madrugada. Vamos lá.
Naquele momento me enchi de esperanças, afinal podia ser especulação. Meu esposo estava bem sim! 
Quando sai do elevador, ele pediu que eu esperasse do lado de fora. Disse que iria chamar a médica. Então eu aguardei ali impaciente, andando de um lado para o outro, pedindo muito a Deus! 
Quando ela saiu, segurou em minhas mãos, me puxou para sentar com ela e disse:
-Bom dia, eu sou a médica que recebeu seu esposo na segunda-feira. Um rapaz muito forte..... E ele esta noite teve duas paradas cardíacas, tentamos reanimar. Mas não conseguimos. Seu esposo se foi. 
Respirei e com os olhos cheios de lágrimas perguntei:
-Ele está aqui? 
-Está sim. Lá na capela.
- Eu posso vê-lo?
- Pode. Peça o oficial de dia, que te leve. E se ele questionar. Diga que eu deixei! 
Ainda segurando em minhas mãos, ela perguntou:
- Quantos anos você tem? 
-19 anos.
-Meus Deus! Muito nova! 
Eu a agradeci. E voltei. 
Quando cheguei na recepção, vi minha família em peso. Todos apreensivos, com a expressão no rosto de que já sabiam da notícia. Eu olhei para todos e balancei a cabeça chorando.
Fui até a sala do oficial. E pedi para ver meu esposo. Queria vê-lo de qualquer jeito, pois sabia que ele ainda era o meu menino. Sabia que ele ainda estava com uma boa aparência. Aparência que no dia do velório não estaria mais. Então eu supliquei ao oficial do dia. E ele indubitavelmente tentou me impedir. 
Eu insisti. Disse que a médica tinha deixado eu ver... Então ele concordou.
Chamei meu cunhado para ir comigo. Chegando lá, ficamos do lado de fora, aguardando a liberação. Então ele sai nos autorizando a entrar...
Entrei e vi meu menino, ali naquele saco branco com zíper, com as mãos amarradas com ataduras. Tirei a cabeça dele de dentro. Segurei em meus braços, e o beijava tanto!!! Acariciava seu rosto. E eu estava certa. Ainda era o meu bebezinho, parecia que estava dormindo, ainda conseguia sentir seu último calor de seu corpo... 
Abri seu olhos, para vê os olhos castanhos claros que mais amei em toda minha vida. Sabia que seria a última vez que o veria. E o prometi ali, cuidar da nossa pequena. Cuidar do jeitinho que ele queria. Eu não sabia se ia conseguir cumprir de fato. Mas eu estava ali prometendo... Devo ter ficado uns 10 minutos ali. Voltei com meu coração dilacerado. Minha boca, bochecha e nariz, ardiam por causa do formol. Ventava muito, o dia estava fechado, triste... Me sentei, estava em choque. Não estava conseguindo acreditar naquilo tudo. As lágrimas saiam dos meus olhos involuntariamente, e rolavam pelo meu rosto. Eu olhava para minha filha, sabia que tinha que cuidar dela. Mas não conseguia me mexer... Ela tão pequena não entendia o que estava acontecendo. Ela cresceria sem o papaizinho dela, sem o herói. Ele não verá seu crescimento.
Me vi com 19 anos, viúva e com uma bebê que acabara de fazer 4 meses. Naquele momento eu pensava que mal conseguia cuidar de mim, como iria cuidar da nossa pequena? Então me veio a voz dele na minha cabeça dizendo: "Amor não fica assim, você precisa estar bem para cuidar da nossa filha. Como posso posso ficar tranquilo com você assim? Eu estou trabalhando por vocês. Fica bem!" Isso ele sempre me dizia, quando eu ligava para ele chorando por causa de sua ausência. Devido a carga excessiva de trabalho. E eu me vi em uma situação que eu não podia me entregar para dor, precisava estar bem para cuidar da nossa bebê. 
Minha força vem dela. O amor que sinto pela minha filha que me faz vencer todos os dias! 
Hoje(01/11/16), ele estaria completando 31 anos. Estaria, se sua vida não estivesse sido interrompida. Mas acredito que Deus escolhe os melhores primeiros! Ele está em um lugar bem melhor que o nosso e isso me conforta. Hoje tenho um pedacinho dele vivo comigo. E irei fazer sim por ela tudo que ele queria fazer, essa é minha missão!

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