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SOLUÇÃO EMPRÉSTIMOS

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segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Abordagem policial é a ‘síndrome do pequeno poder’, diz PM

Por José Cícero da Silva

Da Agência Pública

Em entrevista à Pública, policial diz que abordagem “é loteria” e que o “enquadro” na periferia de São Paulo é “totalmente” diferente do que na Vila Madalena

Um policial militar da ativa contou à Pública (sob a condição de anonimato) como se dão os chamados “enquadros” na periferia de São Paulo.

Segundo o PM, a corporação não trabalha a mente do policial para o serviço. “É subjetivo, não dá pra falar que todo policial vai humilhar, vai bater. Cada abordagem é uma loteria. Às vezes, você é abordado por três policiais e cada um pensa diferente; às vezes, você pode responder algo pra mim e eu achar legal, mas meu parceiro não. Aí ele começa a querer te pegar nas ideias. Te pegar na orelhada. Se ele se sentir ofendido, ele vai te bater. É a síndrome do pequeno poder.”

O Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe) na cartilha Abordagem policial, lançada no início do ano, explica que a PM não pode parar alguém por estar na periferia, pela cor da pele, orientação sexual, gênero ou pela forma como está vestido. Mas a realidade é outra para o entrevistado. “A polícia na periferia é igual rato acuado: qualquer coisa que se mexer ele vai atacar. Então vai ter um tratamento diferenciado do que na Vila Madalena”, afirma.

Em 2015, a Polícia Militar do Estado de São Paulo fez mais de 3 milhões de abordagens na capital, algo como 255 mil por mês, 8 mil por dia, 300 por hora, 5 por minuto. A informação, obtida da Secretaria de Segurança Pública (SSP) via Lei de Acesso à Informação, indica que o procedimento se concentra, sobretudo, nas zonas leste e sul, com mais de 67% das abordagens.

Agência Pública – Qual é a orientação que o policial militar recebe para efetuar abordagens?

PM – A orientação dentro da polícia é o Procedimento Operacional Padrão [POP]. Ali diz como se deve agir e reagir em caso de violência. Tanto que, quando o policial faz alguma coisa que não convém a esse procedimento operacional, ele é julgado, muitas vezes condenado, mandado embora, preso.

Agência Pública – No período de treinamento, qual a orientação sobre a abordagem?

PM – A maior parte do treinamento consiste em vivenciar situações que geralmente o aluno vai encontrar nas ruas. Fazemos abordagem a carros, pedestres, treinamento físico… Dentro da sala de aula, geralmente eles mostram abordagens que deram errado.

O instrutor coloca em pauta por que deu errado e o que fazer diferente.

No treinamento a gente aprende: “Parado, polícia!”. E o cara vai parar e levantar a mão. Mas na rua é diferente, o cara vai te questionar, vai levantar a voz, vai vir a mãe, o pai, o cara vai correr, vai vir gente jogar mijo em você, cuspir em você. Então, eles colocam essa situação para condicionar a mente do policial a sempre ter a calma na hora da ação, mas é bem superficial.

Agência Pública – E qual a diferença do treinamento para a rua?

PM –  Total. É como dizem: “Esquece tudo aquilo que você aprendeu na escola”. Você sabe que quando vai abordar na rua, quando é um cidadão de bem, você vai ser educado, vai ser cortês; agora com ladrão é outra ideia. Se você chegar para conversar, ele vai saber que você é recruta, que não tem muita malícia; então, na ideia, ele vai te enrolar. Um cara que é ladrão mesmo sabe identificar um polícia no olho. Então você tem que aprender a identificar o ladrão no olho também.

Se acontecer alguma situação na rua que não se aprendeu, você é militar, tem que saber, não tem pinote. É isso que afasta o policial do cidadão. É uma coisa que está perpetuada na polícia, ninguém vai tirar, só se acabasse com o militarismo.

Agência Pública – Mas você acha que é possível acabar com o militarismo?

PM –  Não, você é louco? Se um dia precisar da Polícia Civil para ir nos protestos, você acha que os caras vão? A Polícia Militar vai porque cumpre ordem, o militarismo cumpre ordem. A cadeia de comando é o governador, secretário de Segurança, comandante-geral…

Se o governador mandou, tá mandado. Se o governador mandar todos os policiais da rua para a avenida Paulista, todos vão. Agora, se ele falar pra Polícia Civil, os caras vão mandar ele tomar no cu e dizer: “Meu trampo aqui é escrivão, não vou ficar chutando bunda de manifestante na rua”.

Se acabar com o militarismo, acaba com o poder do Estado, certeza! É isso o que segura as pontas, mas, por outro lado, sem a polícia vai virar um pandemônio, você vai ser roubado em cada esquina, os caras vão pegar as armas entocadas para roubar o povo, levar seu carro, levar tudo! Por que você acha que militar com uma arma .40 vai enfrentar bandido com fuzil? A gente vai porque tem que ir, a gente tem família pra sustentar, pô!

Agência Pública – A maneira como a polícia aborda na periferia é diferente de na Vila Madalena?

PM –  Com certeza! Quando você aprende a trabalhar na periferia, você fica mais frio para algumas coisas. É diferente de quando você trabalha na Vila Madalena ou na Paulista. Quando se trabalha na periferia, você tende a tratar o povo com mais frieza. Porque não é raro, pelo contrário, é comum, você abordar alguém na rua e a população se voltar contra você. Na periferia, 90% das abordagens são assim. Quando tem um policial enquadrando, você olha em volta, sempre tem alguém questionando, sempre tem alguém filmando, por isso o policial tem que estar 100% alerta. Então ele vai ser hostil, porque ele está com uma arma. E se alguém tentar tirar a arma dele? Geralmente ele não conhece ninguém, está abordando num local de risco, periferia geralmente é local de risco, muito mais para o policial. É um local de muito estresse, tem que estar totalmente na defensiva. É igual rato acuado: qualquer coisa que se mexer ele vai atacar. Então vai ter um tratamento diferenciado do que na Vila Madalena.

Na Vila Madalena, você sabe que ninguém vai chegar pra tentar pegar a sua arma, ninguém vai ficar questionando o que você está fazendo, exceto nas festas, que estão todos bêbados; mas, por exemplo, você fazer uma abordagem na Paulista é totalmente diferente. Ele vai entender, na maioria das vezes, o que você está fazendo. É raro, no centro ou em regiões mais nobres, a pessoa questionar.

Agência Pública – Por que você acha que a periferia tem mais indisposição com o PM?

PM –  Não é preconceito da minha parte, mas a maioria dos ladrões mora na periferia. Ladrão que mora em área nobre é cabeça de PCC, é bicheiro, é cara que não coloca a cara na rua. Agora, ladrão de moto, de celular, de caixa eletrônico, os caras que a gente fala que são os “bichão” mesmo, estão na periferia.

É um outro tratamento que tem que ter com eles. Porque, se você for abordar o cara aqui na porta da biqueira, três horas da manhã, por mais que ele não esteja envolvido, você vai tratar ele como um executivo na Paulista? Você não pode chegar pra ele: “O cidadão, aqui é a polícia, levante as mãos”.

A periferia é uma área de risco pro policial, por isso o tratamento mais rústico. Não é uma coisa que vem de dentro da polícia.

Agência Pública – Mas e os casos de adolescentes que não têm ligação com o crime?

PM –  Vamos falar no caso do baile funk. Você vai chegar num lugar no qual só tem música de apologia ao crime e grande consumo de droga. O policial vai chegar de peito aberto e pedir pro povo sair? Não tem como. No momento do procedimento, quando a polícia está com inferioridade numérica, para não ter o risco do policial ser ferido, tem que fazer uso progressivo da força.

Para grande aglomeração de pessoas, você dispersa com bomba, depois faz o rescaldo. As pessoas saem do local, mas ficam por perto. Se as viaturas saírem, vão voltar todos. Então as viaturas vão pro rescaldo para continuar dispersando. E, se não vai no diálogo, vai ter que ir na força. Aí que vem a borrachada.

Quando você para de ser civil para ser policial, você tem um ano de treinamento meia-boca. Então é muito poder para um cara. E a polícia não trabalha isso na cabeça da pessoa. A minha cabeça é uma, a sua é outra; de repente, você tem a maturidade de pegar um cara na rua, que está fazendo alguma coisa errada e levar pra delegacia. Talvez eu não tenha essa maturidade, talvez eu seja mais esquentado e queira bater, humilhar o cara. Isso é subjetivo. Quando chama atenção, sai na mídia.

Mas uma coisa que não sai na mídia são os policiais da Rota que levaram várias cestas básicas pro asilo semana passada. Isso até saiu na mídia entre policiais, mas isso não vende.

A polícia só quer um soldadinho ali, ela não trabalha a mente do policial. É subjetivo, não dá pra falar que todo policial vai humilhar, vai bater. Cada abordagem é uma loteria. Às vezes, você é abordado por três policiais e cada um pensa diferente; às vezes, você pode responder algo pra mim e eu achar legal, mas meu parceiro não.

Aí ele começa a querer te pegar nas ideias. Te pegar na orelhada. Se ele se sentir ofendido, ele vai te bater. É a síndrome do pequeno poder.

Quando a polícia passa do limite, a gente é julgado: “Ah, você abordou um cara, deixa eu ver como você deveria fazer”. Não fez? Se vira pra se defender.

Agência Pública – A abordagem policial é para mostrar serviço?

PM –  Sim. A maioria não dá nada. É muito policial trabalhando, é muita abordagem, e não conheço batalhão que não tenha meta de abordagem. Você tem que abordar 15 pessoas por dia e cinco veículos. Mas 90% das abordagens não dão em nada. São os 10% que dão toda a repercussão. E geralmente não é abordagem aleatória, daqueles policiais que ficam na operação delegada na Paulista. É em periferia.

Agência Pública – Dependem de quem as agressões que acontecem na abordagem?

PM –  Dependem do policial. É uma loteria. O policial sabe que ele tem o procedimento operacional, mas se abordar na periferia, três horas da manhã, ele sabe que ninguém vai filmar, então ali é a cabeça dele que está no comando. Às vezes, o policial passou o dia inteiro no bico, chegou em casa, brigou com a mulher, brigou com os filhos, tem conta pra pagar, tem ameaça de morte na rua… Então a cabeça dele já está a milhão.

Aí chega à noite para trabalhar e a própria polícia está dando chicotada nas costas dele. Então como ele vai externar isso? Na rua. Tem policial que consegue se controlar. Tem quem não consegue e desconta nos outros.

Agência Pública – O que poderia ser feito para mudar o abuso de autoridade?

PM –  É educação. O povo tem a polícia que merece. Não jogando nas costas da população, mas eu duvido que, se uma pessoa ficar um dia na viatura com o policial, ela vai falar que o policial está errado, por exemplo, em abordar aqui um cara com a arma na cara.

Dentro da viatura é outra visão que você tem. Foi diferente pra mim.

A primeira vez que eu saí fardado, a visão é que todo mundo está olhando pra você. Então o cara que gosta e o que não gosta estão te vendo.

Ladrão conhece polícia e polícia conhece ladrão. Eu não vou chegar com a minha arma no coldre abotoada, porque não sei o que você vai fazer. Então a nossa cultura, pelo menos em São Paulo, o cara acha que na área dele pode tudo.

Quanto mais o cara folga, mas a polícia tem que tomar conta da situação. Quando não toma conta – tem um monte de vídeo –, tomam chave de moto do policial, arma de polícia, matam policial. A gente é gente também. Policial tem família e não quer sair pra morrer. Se você for pesquisar, a maioria dos policiais prefere ficar dentro do quartel. Você acha que polícia quer trocar tiro com ladrão? Ele pode até querer no começo, mas depois da primeira troca de tiro… Você ouve o zumbido da bala passando perto da sua orelha, e pensa: “Pô, tenho família”.

O policial não quer violência, mas o serviço dele é isso. Se o cara vai te dar um tiro, você tem que dar dois. Se der dois, tem que dar três. Ninguém vai chegar para perder. Nem ladrão nem polícia.

Comparando com a minha época, quando a viatura passava, todo mundo ficava em choque, achando que ia tomar “enquadro”, que ia apanhar. Hoje a gente passa, os caras entram no meio da rua. Quando eu trabalhava na Rocam, o cara estava dando um “pinote” e, quando passou pelo pessoal, todo mundo abriu; quando a gente foi passar, fechou, com a intenção da gente atropelar. É outro mundo.

Agência Pública – Que mundo é esse?

PM –  Você entra sabendo que vai vender a sua vida para o Estado. Quando ele precisar de você, você tem que estar lá. Então você não tem mais família. Não tem mais horário de folga. Você fica 24 horas na pressão de ser policial. São 100 mil homens nesta tensão, mas tem o dobro de ladrão.

Agência Pública – A visão de que “a molecadinha são os piores” contribui para o abuso?

PM –  Com certeza. Mas, normalmente, quem dá pinote na viatura? Menor de idade. Quem atropela velhinha na rua, dando pinote na viatura? Menor de idade. Quem atropela motoqueiro para fugir da polícia? Menor de idade. O cara que já está “tiozão” no crime não quer que o policial vá lá numa situação em que ele pode morrer. Menor de idade, não. Ele entra na sua casa, geralmente ela tá cheirado – não vou falar que são todos, porque o menor de idade não sabe o que é o mundo –; então ele tem que dar uma esticada para poder fazer o trampo. Ele pode chegar, levar as suas coisas e ir embora. Mas ele pode chegar e te esculachar. Pode acontecer. É uma loteria.

Agência Pública – Você quer sair da PM?

PM –  Sim. Por conta da injustiça dentro da PM. Do mesmo jeito que as pessoas sofrem injustiça na abordagem, a gente sobre injustiça dentro do quartel.

Agência Pública – Os policiais são punidos?

PM –  Bastante. Violência policial sempre teve o policial sendo expulso.

Fonte; http://apublica.org